Desafios

1.600 km, dois desafios e uma certeza: Karin e Cleber são mesmo malucos (e orgulhosos disso)

O casal do @aceleraesai completou o SaddleSore 1600K e o Not Right Rider simultaneamente — Karin em uma Twister 250, aos 42 anos de carteira

Juliana R B Crepaldi

Juliana R B Crepaldi

· 8 min de leitura

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1.600 km, dois desafios e uma certeza: Karin e Cleber são mesmo malucos (e orgulhosos disso)

1.600 km, dois desafios e uma certeza: Karin e Cleber são mesmo malucos (e orgulhosos disso)

Karin tirou a carteira de moto aos 42 anos. Poucos anos depois, ela estava na estrada às 3 da manhã, com mais de 1.600 km pela frente e uma Honda Twister 250 embaixo dela. Ao lado, o marido Cleber. Juntos, eles completaram dois desafios de longa distância no mesmo dia: o SaddleSore 1600K e o Not Right Rider, da Iron Butt Association. O que parecia loucura virou conquista — e uma das histórias mais bonitas do motociclismo brasileiro.

Karin e Cleber do @aceleraesai após completar 1.600 km no SaddleSore 1600K

Foto: Cleber e Karin | @aceleraesai

Como tudo começou: um post no Instagram e uma ideia que não saiu mais da cabeça

A história começa em Tiradentes, durante uma viagem de moto. Lá, o casal visitou o Museu da Moto e passou a acompanhar pelo Instagram o Rômulo Filgueiras, proprietário do museu. Certa vez, ele publicou uma homenagem a um motociclista que tinha acabado de concluir um Iron Butt.

O Cleber viu o post. Ficou curioso. Foi pesquisar. E voltou com uma proposta simples e direta:

"Eu quero fazer."

A reação da Karin foi honesta: "Esse homem está maluco." Mas ela já se conhecia bem o suficiente para saber que também toparia. Nas palavras dela, ela também é outra louca.

Só que, antes de simplesmente sair para encarar 1.600 quilômetros sem preparação, o casal decidiu descobrir até onde a resistência deles realmente chegava. E foi aí que o Caminhos de Motos entrou na história.

Museu da Moto de Tiradentes, onde a história de Karin e Cleber com o Iron Butt começou

Foto: Internet

O que é o SaddleSore 1600K — e por que é um dos desafios mais difíceis do motociclismo mundial

A Iron Butt Association é uma organização internacional dedicada a viagens longas de moto com foco em segurança. Ela tem mais de 75 mil membros espalhados pelo mundo. O nome é uma brincadeira em inglês que significa, literalmente, "bunda de ferro" — uma referência bem-humorada ao que acontece com qualquer pessoa que passe muitas horas seguidas sobre uma sela.

O SaddleSore 1600K é o desafio mais popular da associação: o piloto precisa percorrer ao menos 1.610 quilômetros em menos de 24 horas. Todo o percurso precisa ser documentado — recibos de abastecimento com data e hora, fotos do odômetro, diário de paradas. Nada é deixado ao acaso. A certificação chega depois que a Iron Butt analisa toda a documentação enviada.

No Brasil, a Iron Butt tem representação própria e orienta os candidatos em português. Quem completa o desafio entra na lista oficial dos pilotos certificados da associação — um título reconhecido em todo o mundo do motociclismo.

Karin e Cleber @aceleraesai desafio Iron Butt

Foto: Cleber e Karin | @aceleraesai

O Not Right Rider: o desafio dentro do desafio

Enquanto o casal planejava o SaddleSore, a Karin descobriu outra certificação da Iron Butt Association: o Not Right Rider. O nome é uma gozação — significa algo como "piloto que não está bem da cabeça". Para ganhar esse título, o motociclista precisa completar um dos desafios de longa distância em uma moto com mais de 40 anos, uma scooter abaixo de 300 cc ou — o caso da Karin — uma moto de até 250 cc.

Só que a Karin tinha uma Honda Twister 250 na garagem.

A pergunta veio natural: "Por que não?"

Ela contou para o Cleber. Ele incentivou — mas não escondeu a preocupação. Uma coisa é fazer 1.600 km numa moto maior. Outra é fazer tudo isso numa 250 cc, que exige mais do piloto por ter menos torque e potência para manter velocidade em estrada. Mesmo assim, ele confiava na capacidade dela. E os dois toparam o desafio duplo.

A Honda Twister 250 tem motor de 249,5 cc, câmbio de 6 marchas e tanque de 16,5 litros — o que ajuda numa jornada onde cada parada para abastecer conta no relógio. É uma moto leve e confiável, mas não foi feita para distâncias desse tamanho. Usá-la no SaddleSore é exatamente o tipo de coisa que coloca alguém no clube dos Not Right Riders.

Pouquíssimas mulheres no Brasil têm essa certificação. A Karin queria mudar isso.

As motos escolhidas Honda Twister 250 Triumph Scrambler 450

Foto: Cleber e Karin | @aceleraesai

Antes dos 1.600 km: os treinos que tornaram o sonho possível

Karin e Cleber não chegaram ao SaddleSore sem preparação. Antes de encarar os 1.600 km, eles fizeram três desafios do Caminhos de Motos — uma plataforma brasileira que organiza roteiros desafiadores com checkpoints e homologação oficial.

O primeiro foi o Desafio das 7 Serras: cerca de 580 km percorrendo sete serras do Rio de Janeiro em um único dia, com 11 pontos de checagem obrigatórios, passando por Miguel Pereira, Petrópolis, Serra dos Órgãos e Serra do Mar. O segundo foi o Desafio Serra e Mar, conectando a Costa Verde fluminense ao litoral paulista pela BR-101, com aproximadamente 570 km de serras e curvas. O terceiro foi o Guerreiros do Norte, com cerca de 520 km pelo norte fluminense — incluindo trechos com asfalto ruim que testam a atenção e a paciência de qualquer piloto.

Cada desafio ensinou algo diferente. Eles aprenderam que o corpo precisa estar preparado, mas que saber administrar o desgaste ao longo de uma jornada longa é tão importante quanto a condição física.

A preparação final e a noite que não queria passar

Os 15 dias antes do desafio foram dedicados às motos. Manutenções em dia, tudo revisado. E a Karin ficou responsável pelo roteiro — o que não foi simples, porque eles não partiram de uma rota pronta.

A referência que ela usou foi uma viagem anterior até Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, onde tinham percorrido quase 1.000 km em cerca de nove horas. Ela pegou aquela experiência, adaptou o percurso e montou um roteiro que atingisse a quilometragem necessária. Mas mesmo com tudo planejado, o medo de não conseguir estava lá.

Na sexta-feira, foram dormir às 19 horas. Precisavam acordar às 2 da manhã para começar às 3h. O problema: para a Karin, o primeiro desafio do Iron Butt foi justamente conseguir dormir. A ansiedade era grande demais. Ela conta que, naquele momento, já pensava: "Agora o CAPS chega."

Às 3h da manhã, as motos saíram. A partir daí, não havia mais muito o que pensar. Era seguir.

Na estrada: o calor, a corrente e as músicas de criança

A madrugada foi tranquila. Depois de algumas horas de estrada, veio o nascer do sol — um daqueles momentos que renovam a energia. A noite tinha ficado para trás e os dois continuavam avançando.

O primeiro grande adversário não foi o cansaço. Foi o calor. Entre 12h e 15h, o sol de Mato Grosso do Sul ficou pesado demais. O casal aumentou as paradas para hidratação, aproveitando os pontos de apoio da Rodovia Marechal Rondon para beber água e recuperar o fôlego.

Em determinado momento, a corrente da Twister ganhou folga. Uma parada, um reajuste rápido, e de volta para a estrada.

Foi somente no final do dia que o peso da jornada bateu de verdade. O sol tinha cobrado seu preço. A cabeça da Karin já não fazia mais conta de quanto faltava. O Cleber estava num estado melhor — pilotava uma 400 cc, moto que exige menos do piloto em ritmo de estrada. Ele percebeu que ela estava chegando perto do limite.

Desistir não era opção. E eles encontraram uma solução completamente improvável: começaram a cantar. Não músicas épicas de estrada. Cantaram Sabão Crá-Crá, Alô, criançada, o Bozo chegou, Bananaaa, bananaaa. Músicas aleatórias com uma função muito clara: ocupar a cabeça, rir e continuar.

Funcionou.

A chegada: a conquista de cada um — e a dela em especial

Quando o marcador finalmente bateu os 1.600 quilômetros, a Karin teve um pensamento simples e direto:

"Eu consegui."

E logo depois, o segundo:

"Tenho atestado de loucura."

Mas aquela chegada significou muito mais do que uma quilometragem no odômetro. Ela descobriu que sua força e sua resistência eram muito maiores do que imaginava. E tirou uma conclusão que considera importante como mulher e motociclista: a mulher é tão capaz quanto o homem de se desafiar, superar limites e conquistar o que decide buscar.

Ela tinha tirado a carteira de moto aos 42 anos. E ali estava, depois de 1.600 km, com a certificação do SaddleSore 1600K e do Not Right Rider no nome — uma das pouquíssimas mulheres no Brasil a ter essa combinação.

Para o Cleber, a chegada teve outro sabor. O primeiro pensamento foi direto: "Ufa, acabou. Quero dormir." Mas depois do descanso veio o sentimento de conquista. E, quase naturalmente, surgiu a pergunta que todo motociclista que faz um desafio desses acaba fazendo: "Quando será o próximo?"

Uma das maiores recompensas para ele foi ver a Karin conquistando algo que ela mesma não tinha certeza que conseguiria. Ele a define como uma mulher determinada, que corre atrás do que quer. E existe uma frase dele que resume tudo isso:

"Ela tirou a carta de moto aos 42 anos. Ver ela fazendo o que muito motociclista velho nunca fez me enche de orgulho."

O que fica depois dos 1.600 km

No final, cada um levou uma descoberta diferente para casa. Karin descobriu uma força que não sabia que tinha. Cleber descobriu que os próprios limites também podem ser quebrados. E os dois descobriram que, quando um chega perto do limite, o outro está ali para ajudar a continuar — seja ajustando a corrente da Twister, seja cantando Sabão Crá-Crá no meio do Mato Grosso do Sul.

A história do casal mostra que o motociclismo não tem limite de idade, de cilindrada, nem de gênero. Uma mulher que tirou a carteira aos 42 anos e completou um dos desafios mais difíceis do motociclismo mundial em uma 250 cc é prova disso.

Não foi apenas sobre fazer 1.600 quilômetros. Foi sobre acreditar que eram capazes. E, quando chegaram ao final, ficou uma certeza: eles realmente são malucos. Mas também ficou outra, ainda mais importante — não têm medo. A vida é feita de desafios. E eles querem continuar encarando os seus.

Quer acompanhar as próximas aventuras do casal? Siga @aceleraesai no Instagram.

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Juliana R B Crepaldi

Escrito por

Juliana R B Crepaldi

FAMÍLIA MEU BEM MAIOR Pós aos 45 anos é ser velha para pilotar ? @casalcrepaldi host - @epa.cast Motociclismo real 🏍️🛵

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