De moto de 300cc ao Alasca: a história do casal brasileiro que cruzou 20 países e fez o impossível
Uma moto de 300cc. Vinte países. Mais de 100 mil quilômetros. E dois brasileiros que decidiram que o tamanho da moto não ia definir o tamanho do sonho. Barbielly Cabral, bióloga de 26 anos de Rio Verde (GO), e Roger Sabino, designer gráfico de 27 anos de Peabiru (PR), chegaram ao Alasca em 14 de julho de 2026 — e o vídeo da chegada deles viralizou com quase 400 mil visualizações. O feito impressionou não só pela distância, mas pela moto que eles escolheram: uma Honda Sahara 300, uma trail de entrada que a maioria das pessoas usa para ir trabalhar ou dar uma voltinha no fim de semana.

Foto: Instagram Barbielly Cabral e Roger Sabino
Tudo começou com uma vontade de ver o mar
A história de Roger começa durante a pandemia. Ele estava em Peabiru, uma cidadezinha de 13 mil habitantes no noroeste do Paraná, e teve uma vontade simples: ver o mar. Pegou a moto e foi até Ubatuba, em São Paulo. A ideia era passar um mês fora. O que ele não sabia é que esse mês ia virar cinco anos.
Do litoral paulista, Roger foi expandindo os roteiros. Sul, Nordeste, Norte do Brasil. Em 2024, já estava em Alter do Chão, no Pará — um dos lugares mais bonitos da Amazônia — quando cruzou com Barbielly. Ela tinha acabado de se formar em Biologia pela UFG (Universidade Federal de Goiás) e estava viajando de mochilão pelo Brasil para conhecer os diferentes biomas do país.
Foi aí que Roger deu o convite: “Vou para a Venezuela. Depois subo para o Alasca. Você vem?” Barbielly disse sim. E aí a história ganhou um segundo personagem — e ficou muito melhor.

Foto: Instagram Barbielly Cabral e Roger Sabino
Por que uma 300cc? Entenda a escolha que todo mundo questiona
Quando alguém fala em atravessar as Américas de moto, a maioria pensa em uma big trail: BMW GS 1250, Africa Twin, Tiger 900. Motos robustas, com motor grande, baú lateral e GPS de bordo. Mas Roger foi com uma Honda Sahara 300 — e isso chama atenção por um motivo muito simples: a Sahara foi feita para outro propósito.
A Sahara 300 é uma trail média brasileira. Motor monocilíndrico de 293,5 cc, arrefecido a ar, com 25 cv de potência máxima e câmbio de seis marchas. Peso seco de 147 kg, tanque de 13,8 litros, consumo entre 28 e 32 km/l. Altura do banco de 859 mm e boa distância do solo — 269 mm — que ajuda bastante em estradas ruins. É uma moto versátil, feita para quem precisa alternar entre a cidade e o interior.
Na teoria, ela não foi feita para o Alasca. Na prática, ela chegou lá.
A escolha de uma moto pequena não foi falta de opção — foi uma decisão estratégica. Motos de baixa cilindrada têm peças mais baratas e mais fáceis de encontrar em países em desenvolvimento. São mais leves para manobrar em estradas ruins. Consomem menos combustível, o que aumenta a autonomia em trechos remotos. E, em caso de problema mecânico, qualquer mecânico de beira de estrada consegue resolver.
O próprio Roger viveu isso na pele: quando o motor fundiu no Peru, ele precisou viajar 2.500 km de ônibus para buscar peças. Com uma moto importada de grande cilindrada, a situação seria muito mais difícil e cara.

Foto: Imagem Ilustrativa
O que 20 países ensinam sobre a vida
Brasil, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Guatemala, México, Panamá — e mais outros. Vinte países no total. Cada um com estrada diferente, idioma diferente, comida diferente, perigo diferente.
Um dos trechos mais difíceis foi a travessia do Darién Gap — a faixa de selva densa que separa o Panamá da Colômbia e onde não existe estrada. Ali, ninguém passa de moto. Roger e Barbielly cruzaram num barco de carga, dormindo em redes, sem coletes salva-vidas, em 14 dias de mar. A Honda foi junto, amarrada no porão.
No México, Barbielly passou mal com desidratação grave e ficou dois dias hospitalizada. No Peru, como já citado, o motor fundiu. Nesses momentos, a viagem cobra caro — emocionalmente e financeiramente.
Para pagar a aventura, os dois trabalham remotamente. Roger como designer gráfico. Barbielly como editora de vídeo e produtora de conteúdo para redes sociais. Eles documentam tudo no Instagram e no YouTube. Ao chegar ao Alasca, Roger já tinha mais de 72 mil seguidores acompanhando a jornada.
Ao longo do caminho, a filosofia de viagem foi mudando. No começo, Roger rodava 950 km por dia — 15 horas na sela. Com o tempo, foi desacelerando. A meta virou 500 km diários, com mais paradas, mais conversa com as pessoas locais, mais tempo em cada lugar. Segundo ele: “Viajar é uma faculdade. A estrada ensina coisas que nenhuma sala de aula consegue.”

Foto: Imagem Ilustrativa
A visão dela: quando a biologia encontrou a aventura
Barbielly não saiu de Goiás querendo chegar ao Alasca. Ela saiu querendo conhecer os biomas do Brasil. Amazônia, Cerrado, Caatinga — era esse o plano original. O Alasca veio depois, junto com Roger.
Mas tem algo importante na trajetória dela que vai além da viagem em si: ela é mulher, bióloga, viajando de moto por países que nem sempre são fáceis para quem pilota sozinho — e ainda mais para quem pilota e é mulher. Ela encarou tudo isso com naturalidade. Atravessou a Amazônia, cruzou os Andes, dormiu em tenda e em casa de desconhecidos, editou vídeos num notebook em paradas de beira de estrada.
Para Barbielly, a viagem foi mais do que turismo: foi um acelerador de vida. Cada país novo foi uma aula de botânica, zoologia, etnologia e humanidade ao mesmo tempo. Ela diz que a estrada ensina com uma velocidade que a faculdade não consegue.
E ela chegou ao Alasca. Com 26 anos. Numa moto de 300cc. Do Pará.
A visão dele: a moto pequena que virou símbolo
Para Roger, a Sahara 300 não é só a moto que fez a viagem. Ela virou um símbolo de que o equipamento não precisa ser perfeito para o sonho sair do papel. Ele responde muita coisa nos comentários do Instagram com uma ideia simples: a moto não importa, importa a vontade de ir.
Isso tem um peso enorme para a comunidade motociclista brasileira. A maioria dos motociclistas do país pilota motos de até 300cc — CG, Fan, Biz, Sahara. São motos de trabalho, de deslocamento diário. Ver alguém usar exatamente esse tipo de moto para chegar ao Alasca quebra uma barreira mental que muita gente tinha.
Roger já planejava enviar a Sahara para a Europa para dar continuidade à viagem. A ideia é uma volta ao mundo, no ritmo deles, com a mesma moto que cruzou as Américas. O próximo capítulo ainda vai ser escrito na estrada.

Foto: Instagram Barbielly Cabral e Roger Sabino

Foto: Instagram Barbielly Cabral e Roger Sabino
O que o Alasca significa para quem sai do Pará de moto
O Alasca é o extremo norte da América do Norte. Do Brasil até lá, de moto, passando pelos países que eles passaram, são mais de 20 mil km em linha reta — mas a estrada nunca é reta. São montanhas, selva fechada, deserto, frio polar, calor úmido da Amazônia, altitude dos Andes. São vistos, fronteiras, alfândegas, câmbio de moeda, idioma novo a cada semana.
E no meio de tudo isso, uma Honda Sahara 300. A mesma que você vê todos os dias na fila do trânsito de qualquer cidade brasileira.
No dia 14 de julho de 2026, Barbielly postou o vídeo da chegada no Instagram. A moto parada. Os dois abraçados. A bandeira do Brasil. E quase 400 mil pessoas assistindo. A legenda era simples — mas dizia tudo: chegamos.

Foto: Instagram Barbielly Cabral e Roger Sabino
Inspire-se: você não precisa de uma moto grande para começar
A história de Barbielly e Roger não é só sobre o Alasca. É sobre começar. É sobre não esperar ter a moto perfeita, o equipamento ideal, a conta cheia. Roger saiu de Peabiru querendo ver a praia. Barbielly saiu de Goiás querendo conhecer os biomas do Brasil. Nenhum dos dois saiu com um plano de chegar ao Alasca.
A estrada foi montando o plano. E uma moto de 300cc foi suficiente para carregar os dois até o fim do continente.
Se você tem uma moto pequena e um sonho grande, esse casal provou que dá. O único requisito é sair.
Acompanhe a viagem de Barbielly em @barbienaestrada e de Roger em @rogersabins no Instagram.




