Festival Moto Brasil terminou, mas estas obras de arte sobre rodas merecem continuar em evidência
O Festival Moto Brasil fechou as portas da sua 14ª edição no último domingo (18), no Riocentro, no Rio de Janeiro. Mas tem coisa que não dá pra deixar pra trás tão fácil. O Bike & Art foi um desses casos. Quem passou por lá sabe: dava pra ficar horas olhando cada detalhe.
Com curadoria de Vitor Gonçalves, o Vitão, da Garage 68, a exposição trouxe máquinas de diferentes épocas e estilos. Cada uma foi escolhida pela criatividade, pela execução e pelo trabalho dos customizadores. Aqui na Visem TV, a gente separou as criações que mais chamaram atenção.
A Harley de R$ 350 mil que fez todo mundo parar
Entre as motos que mais prenderam o olhar, uma se destacou logo de cara: uma Harley-Davidson Road King de 2008, customizada no estilo Vicla pela Garage 68 para um cliente chamado Frank. O preço? Cerca de R$ 350 mil, segundo o próprio Vitão.
O estilo Vicla vem da cultura chicana — aquela mistura de arte, identidade latina e amor por máquinas que nasceu nas ruas do leste de Los Angeles. Numa customização Vicla, tudo fala: a pintura elaborada, os cromados caprichados, as linhas alongadas. Nessa Road King, a paleta de azul ficou impecável.
Mas o que surpreendeu não foi só o visual bonito. A moto já estava despertando interesse de admiradores da cultura custom nos próprios Estados Unidos. É o talento nacional sendo reconhecido lá fora.

Foto: Acervo Festival Moto Brasil
A Divine Chopper: céu, inferno e cinco litros de verniz
Se a Road King roubou os olhos, a Divine Chopper roubou a cabeça. Criação de Danilo Bona, da Wolf Motorcycles, em parceria com a Lucky Friends, ela partiu de uma Harley-Davidson FX 1450 de 2002 — e chegou a um lugar completamente diferente.
A ideia central é a dualidade entre o sagrado e o profano. Com luz normal, a moto exibe imagens religiosas. Liga a luz negra — e tudo muda. Elementos sombrios, escondidos na pintura, aparecem como se estivessem esperando o momento certo para surgir.
Foram dez meses de trabalho no total. Três só de pintura. Aproximadamente cinco litros de verniz. O banco em veludo vermelho remete ao trono papal. E tem um detalhe que resume bem a proposta: uma imagem de Jesus Cristo pintada sob o tanque exige que o observador se abaixe para ver. Quem quer contemplar, precisa se ajoelhar. Como disse o próprio Danilo: Nada está ali por acaso.

Foto: VGCOM - FMB - RENATA MEIRELES
De 1951 a 2025: quando duas motos quase iguais contam histórias diferentes
Uma das coincidências mais curiosas do Bike & Art foi a presença de duas Harley-Davidson Panhead de 1951, lado a lado. À primeira vista, pareciam irmãs. Mas cada uma tinha sua própria personalidade.
Uma delas veio da Dobrucki Custom, de Célio Dobrucki, de Curitiba. A pintura preta com flames — aqueles grafismos de fogo em amarelo, laranja e vermelho — chamou atenção pela precisão. Célio já tinha estado em edições anteriores do Bike & Art, e voltou em 2026 com mais uma criação de peso. A outra Panhead foi apresentada pela Lucky Friends.
No mesmo espaço, havia uma Royal Enfield Super Meteor de 2025, de Leandro, customizada por Jackson, da Jack Customs. Do motor lendário da década de 50 à Royal Enfield mais nova — o Bike & Art mostrou que a paixão pela customização não tem época certa.

Foto: VGCOM - FMB - RENATA MEIRELES

Foto: VGCOM - FMB - RENATA MEIRELES

Foto: VGCOM - FMB - RENATA MEIRELES
A Honda que virou série: quando a moto é herança de família
Entre todas as histórias do Bike & Art, uma teve um peso diferente. A Honda CB 750 Chopper de 1973, de Danilo Sacramento, não é só uma moto bonita. É a história de um pai e um filho separados por décadas — e reunidos por uma restauração.
Tudo começou nos anos 1970, quando Edison Sacramento — pai de Danilo — transformou essa CB 750 em uma chopper. A moto ficou parada por muito tempo. Quase cinco décadas depois, Danilo decidiu restaurá-la, com a customização assinada por Recar.
O processo virou uma série documental chamada Legado sobre Rodas, com oito episódios mostrando cada etapa da recuperação da máquina — e tudo o que ela representa em termos de memória, família e amor pelas motos.

Foto: VGCOM - FMB - RENATA MEIRELES
A visão dela e a visão dele
Para quem pilota, o Bike & Art mostrou que customização não tem um dono. As pilotas que passaram pela exposição foram algumas das que mais pararam para olhar cada detalhe — especialmente nas motos com pinturas elaboradas, como a Divine Chopper e a Road King Vicla.
Quem entendia de pintura parava para explicar para quem entendia de mecânica. Quem chegou pelo lado da arte descobriu os detalhes técnicos. Essa troca constante de olhares é exatamente o que faz o Bike & Art funcionar — um espaço onde pilota e piloto chegam pelo mesmo amor, mas enxergam coisas diferentes. E todos saem aprendendo.

Foto: VGCOM - FMB - RENATA MEIRELES
A Maria: a moto que guarda a história do Festival
De todas as motos do Bike & Art, uma tinha um significado que foi além da arte. A Maria — uma Harley-Davidson Heritage de 2006 — pertenceu a Gustavo Lorenzo, o idealizador do Festival Moto Brasil, que morreu em junho deste ano.
Gustavo criou o Festival em 2011 e foi o responsável por transformá-lo em referência nacional. Com ele, o evento cresceu de uma ideia pequena para um dos maiores encontros de motociclismo do Brasil — 50 mil visitantes em três dias, 14 edições. Sua ausência foi sentida em cada canto do Riocentro.
A Maria foi customizada por Léo Dalla, de Vitória (ES), e transformada em um totem interativo de informações dentro da exposição. Mas o momento mais marcante foi outro: em alguns instantes do evento, a moto voltou a acelerar. Quem estava na pilotagem eram Thales Lorenzo, filho de Gustavo, e a pequena Sophia, sua neta — filha de Thainna Lorenzo, irmã de Thales.
O ronco do motor. A curiosidade do público se aproximando. A emoção da família. A Maria mostrou que algumas histórias não têm fim — elas só mudam de forma e continuam vivas.

Foto: VGCOM - FMB - RENATA MEIRELES
O Dicionário dos Customizadores
Você ouviu alguns termos no Festival e ficou curioso? A gente explica:
Vicla — estilo de customização que vem da cultura chicana, aquela mistura de arte e identidade latina nascida nas ruas do leste de Los Angeles. Marcado por pinturas elaboradas, cromados e linhas alongadas.
Flames — grafismos de pintura que imitam as formas do fogo. São um clássico da cultura custom, usados há décadas para dar movimento e personalidade às motos.
Panhead — família de motores da Harley-Davidson, produzida entre 1948 e 1965. O nome vem do formato das tampas dos cabeçotes, que lembram uma panela virada para baixo. Um ícone para colecionadores.
Show bike — moto preparada especialmente para exposição. Não é pra rua (pelo menos não sempre) — é pra ser admirada, fotografada e contemplada de perto.
Nos vemos em 2027
O Festival Moto Brasil 2026 ficou marcado por muita coisa: as criações incríveis do Bike & Art, a emoção em torno da Maria, os shows e as atrações radicais. E pela força de uma comunidade que sabe que, mesmo com uma perda enorme, o legado não para.
A 15ª edição já está no horizonte. E se esta aqui é o padrão, o que vem por aí promete muito. Fique de olho no site do Festival em festivalmotobrasil.com.br e acompanhe pelo Instagram @festivalmotobrasil.





