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Motociclistas batem recorde de mortes em São Paulo: 334 vítimas em oito meses e a dúvida que a faixa azul deixou no ar

Capital registra o pior número desde 2015 e quase metade dos mortos no trânsito pilotava moto

Luan W Crepaldi

Luan W Crepaldi

· 6 min de leitura

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Vista aerea do transito intenso em grande avenida de Sao Paulo com dezenas de motocicletas no horario de pico

Motociclistas batem recorde de mortes em São Paulo: 334 vítimas em oito meses e a dúvida que a faixa azul deixou no ar

São Paulo terminou agosto de 2026 com um número que pesa: 334 motociclistas mortos em oito meses, o maior volume registrado desde que o Infosiga começou a sistematizar os dados, em 2015. O aumento de 6,4% sobre o mesmo período de 2025 — quando foram 314 óbitos — supera ainda o recorde anterior de 321 mortes, marcado em 2021. Na prática, a cada dois dias e meio, um motociclista morre nas ruas da capital paulista.

Transito São Paulo Motoboy

Foto: Visem TV

O dado mais alarmante, porém, não é só o número absoluto. Motociclistas respondem agora por 49,7% de todas as mortes no trânsito da capital — quase metade dos óbitos, num modal que representa 13,5% da frota total de veículos. Em 2015, essa proporção era de 32%. O crescimento da frota de motos (+18,7% na década) não explica sozinho essa escalada: os motociclistas morrem muito mais do que qualquer outro grupo no trânsito.

O que os números do estado dizem — e o que escondem

No estado de São Paulo como um todo, o quadro parece contraditório à primeira vista. O total de mortes no trânsito caiu 5,5% no acumulado de 2026. A queda, no entanto, não vale para quem anda de moto: as mortes de motociclistas no estado subiram, somando 1.830 vítimas no período analisado. O restante do trânsito melhorou — pedestres, ciclistas e ocupantes de automóveis. Para os motociclistas, a tendência foi na contramão.

Especialistas do setor apontam dois fatores estruturais: a fiscalização de velocidade fragmentada e a expansão acelerada dos serviços de entrega por aplicativo, que colocam trabalhadores em situação de pressão permanente sobre as motos. Dos óbitos identificados até julho, apenas 38% tiveram a ocupação registrada nos boletins de ocorrência — e, desses, pelo menos 32 eram motoboys ou entregadores de aplicativo. Um número provavelmente subestimado.

Motoboys em São Paulo

Foto: Visem TV

A frota de motos cresceu 3% entre julho de 2025 e julho de 2026, contra 1,4% de crescimento da frota total de veículos. O motociclista é um grupo que cresce, trabalha — e morre — em proporção muito maior do que os dados gerais de trânsito sugerem.

Faixa azul: 46 vias, 233 km — e 22 mortes sem endereço

A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) opera hoje 46 vias com faixa azul em São Paulo, totalizando 233,3 km de faixa exclusiva para motocicletas. A faixa azul funciona como um corredor demarcado na pintura do asfalto, posicionado entre as faixas dos automóveis, com o objetivo declarado de organizar o fluxo das motos e reduzir os conflitos com outros veículos. Segundo a CET, cerca de 500 mil motociclistas usam essas vias diariamente.

Faixa Azul Preferencia para Motos

Foto: Visem TV

O relatório final da CET, obtido pela imprensa via Lei de Acesso à Informação (LAI) e entregue à Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), revela que, nas vias com faixa azul, as mortes totais subiram 19,2% após a implantação: de 57 para 68 óbitos. Os atropelamentos fatais triplicaram — de 10 para 25 mortes (alta de 150%). As vítimas não fatais cresceram 15,6% e os acidentes envolvendo carros e motos aumentaram 13,8%.

A prefeitura contesta essa leitura, afirmando redução de 47% nas mortes de motociclistas especificamente nas faixas entre 2023 e 2024. A discrepância metodológica está no coração da controvérsia — e é aqui que o ângulo mais relevante desta cobertura se revela.

O buraco no dado: ninguém sabe onde exatamente as motos morreram

Das 68 mortes registradas em vias com faixa azul no período analisado pelo relatório da CET, a classificação por localização é a seguinte:

  • 20 mortes ocorreram dentro da faixa azul

  • 26 mortes ocorreram fora da faixa azul

  • 22 mortes foram classificadas como “sem informação” de localização

O problema está na etapa seguinte: a CET reclassificou automaticamente os 22 casos “sem informação” como “fora da faixa azul” na apresentação final dos dados à Senatran. Essa reclassificação altera a narrativa sobre a efetividade da política pública — se parte desses 22 casos tivesse ocorrido dentro da faixa, os números seriam ainda mais graves.

Acidentes Motos em São Paulo

Foto: Visem TV

A questão que ainda não foi respondida — e que uma solicitação mais granular via LAI poderia esclarecer — é o cruzamento entre os pontos georreferenciados das mortes e o traçado exato das 46 vias com faixa azul. Esse dado existe nas planilhas do Infosiga, que registra coordenadas dos acidentes. O que falta é a publicação desse cruzamento com transparência.

Vale lembrar: em 13 das 36 vias analisadas no relatório, motos circulavam acima do limite permitido. A Av. Eliseu de Almeida registrou média de 70,5 km/h num trecho com limite de 50 km/h. O Minhocão registrou 63,8 km/h. Velocidade excessiva dentro da própria faixa azul.

A visão dela e a visão dele

Os dados do Infosiga revelam um perfil muito marcado: 89% das vítimas fatais são homens, 48% têm entre 18 e 29 anos, e 90% conduziam o veículo no momento do acidente. O motociclista jovem, trabalhador, sob pressão de prazo — esse é o rosto mais frequente da estatística. Outros 34,3% morreram no próprio local do acidente, antes de qualquer transferência hospitalar.

Mulhers pilotando em São Paulo

Foto: Visem TV

Pilotar de moto em São Paulo

Foto: Visem TV

Para as mulheres, o dado mais revelador está em quem viaja como passageira: 70% dos mortos na garupa são mulheres. Isso significa que, embora as mulheres sejam minoria entre os condutores fatalmente acidentados, elas são maioria entre quem morre sem sequer estar no comando da moto — vítimas da condução de outra pessoa.

Entre as motociclistas que pilotam, o crescimento da comunidade feminina no motociclismo brasileiro oferece um contraponto relevante a essa estatística. O número de mulheres habilitadas para motos cresce há cinco anos consecutivos, e grupos como o Moto Chicas e diversos coletivos femininos em São Paulo têm pautado segurança viária como prioridade — com cursos de pilotagem, campanhas de equipamento e pressão pública por fiscalização mais efetiva.

O que pode mudar — e o que ainda trava

A Senatran ainda avalia se a faixa azul pode sair do regime experimental e se tornar política nacional de trânsito. A autorização para São Paulo vigorou até março de 2026, e a expansão para novas vias está congelada enquanto não houver decisão federal. O relatório da CET com os dados agravados é justamente o documento que está sobre a mesa do órgão neste momento — e sua leitura divide técnicos e gestores.

Especialistas ouvidos pela imprensa são unânimes num ponto: a faixa azul, isolada, não resolve. O problema é sistêmico. Frota crescendo mais rápido que a infraestrutura, fiscalização eletrônica de velocidade insuficiente, entregadores sem proteção trabalhista real e uma cultura de trânsito que ainda trata a moto como veículo de segunda categoria — até aparecer nas estatísticas.

Com 334 mortes em oito meses, São Paulo já ultrapassou qualquer recorde anterior. A pergunta que fica é o que será feito com esse dado antes do fim do ano.

Você pilota em São Paulo? Compartilhe este artigo com quem precisa ver esses números — e acompanhe a Visem TV para as próximas atualizações sobre segurança viária e motociclismo no Brasil.

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Luan W Crepaldi

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Luan W Crepaldi

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