Mulheres nas motos: o crescimento que está redesenhando o motociclismo brasileiro
Por muito tempo, a imagem do motociclista brasileiro foi quase sempre a mesma: homem, acima de 30 anos, capacete integral, colete de clube. Essa imagem ainda existe — mas ela está dividindo espaço com um rosto novo. Um rosto feminino. Com 10,6 milhões de mulheres habilitadas na categoria A, o Brasil assiste a uma transformação silenciosa e acelerada: as mulheres estão tomando conta do guidão, e não há sinal de freio nessa curva.

Foto: Juliana Chapada dos Veadeiros - GO | @Casalcrepaldi
Os números que contam a história
Os dados falam mais alto do que qualquer argumento. Entre 2015 e 2024, o número de mulheres com habilitação na categoria A cresceu 64% no Brasil — saltando de 6,4 milhões para 10,6 milhões. No mesmo período, o crescimento masculino foi de 35%. As mulheres avançam quase ao dobro da velocidade dos homens no mercado de habilitações para motos.
Em termos absolutos, o crescimento ao longo de 15 anos chega a 141% — mais do que o dobro do índice masculino (69%) no mesmo intervalo. Atualmente, as mulheres representam aproximadamente 25% de todos os condutores habilitados na categoria A no país. Em 2016, esse percentual era de apenas 6,2% da população feminina total; em 2025, subiu para 9,2%.
No mercado de duas rodas, as mulheres também movem a agulha. Elas representam cerca de 31% das compras de motos no Brasil. A categoria preferida pelo público feminino é a motoneta (58%), seguida de scooters (31%) — veículos que combinam praticidade urbana com menor exigência de peso e equilíbrio para quem está começando.
O estado de São Paulo lidera em números absolutos com 2,8 milhões de mulheres motociclistas. Mas, em termos de penetração relativa, Rondônia (31,9%), Santa Catarina (27,6%) e Mato Grosso (24,6%) são os estados com maior proporção feminina entre os condutores de moto.

Foto: Juliana Casalcrepaldi e Karin Aceleraesai
Por que mais mulheres estão escolhendo a moto
A moto nunca foi apenas um meio de transporte para quem a escolhe. Para as mulheres que estão chegando agora, ela carrega pelo menos três significados distintos — e todos eles são poderosos.
O primeiro é a praticidade: 56% das mulheres habilitadas na categoria A afirmam usar a moto todos os dias, segundo levantamento da Abraciclo. Em um país de grandes distâncias urbanas e trânsito caótico nas capitais, a moto resolve problemas reais de deslocamento, tempo e custo.
O segundo é a autonomia. Muitas brasileiras relatam que aprender a pilotar representou uma conquista de independência — a capacidade de ir e vir sem depender de ninguém. Há um elo direto entre pilotagem e autoconfiança, especialmente para mulheres que passaram anos como garupa antes de decidir tomar o guidão.
O terceiro fator é a segurança. Em muitos contextos urbanos, pilotar a própria moto se tornou uma alternativa para evitar situações de assédio em transportes públicos lotados. A moto virou, para muitas mulheres, sinônimo de controle sobre o próprio trajeto.
O crescimento não fica restrito às ruas. Nas fábricas do Polo Industrial de Manaus — onde são produzidas as principais marcas de motos do Brasil — o número de mulheres na linha de produção mais que dobrou entre 2015 e 2024, chegando a 3.134 trabalhadoras, uma alta de 107%. No setor inteiro, as mulheres já somam mais de 42 mil profissionais, ou 27,5% da força de trabalho total.

Foto: Karin Aceleraesai
Grupos femininos que estão transformando o motociclismo
O crescimento individual é uma coisa. Mas o que está acelerando a transformação cultural do motociclismo feminino brasileiro é a força dos grupos — comunidades que funcionam como porta de entrada, rede de apoio e espaço de pertencimento para quem está chegando e para quem já está no asfalto há anos.
O portal Mulheres de Moto, criado em novembro de 2009, é o mais antigo e completo ecossistema digital voltado para motociclistas brasileiras. Com 512 mil inscritos no YouTube, o canal produz conteúdo sobre pilotagem, segurança, mecânica, viagens e lançamentos de motos — tudo com olhar feminino, sem vínculo com fabricante ou clube.
O movimento The Litas chegou ao Brasil em 2016 — um ano após nascer nos Estados Unidos — e hoje tem representações em 10 estados e 32 cidades brasileiras. A proposta é simples e democrática: qualquer mulher com moto pode participar, independentemente da marca, cilindrada ou estilo.
O She Rides Brasil, fundado por Bianca Moreira, também vem ganhando espaço nesse cenário ao criar uma comunidade voltada às mulheres que encontram nas duas rodas não apenas uma forma de mobilidade, mas também liberdade, conexão e pertencimento. A iniciativa reúne motociclistas com diferentes experiências e estilos, promovendo a troca de conhecimentos, experiências e histórias dentro e fora das estradas. Mais do que incentivar mulheres a pilotar, o movimento contribui para fortalecer a presença feminina no motociclismo e ampliar a visibilidade de mulheres que assumem cada vez mais o protagonismo sobre duas rodas.

Foto: She Rides Brasil | Encontro
As Ladies of the Road, fundadas em 2010 por um grupo de nove amigas, hoje reúnem mais de 1.300 motociclistas espalhadas pelo Brasil e exterior. Os encontros mensais e as viagens em grupo são o cimento da comunidade.
Além desses grupos de alcance nacional, dezenas de comunidades regionais movimentam o motociclismo feminino de norte a sul. As Damas do Asfalto são um dos grupos mais populares na internet, com mais de 71 mil visualizações no diretório Mulheres de Moto. No Rio Grande do Sul, as Gurias da Kawa reúnem apaixonadas por Kawasaki. Em Brasília, o grupo Mulher e Moto conta com 230 membros ativos. Na Bahia, as Damas do Toque foram o primeiro motogrupo feminino de Santo Antônio de Jesus.
O padrão que une todos esses grupos é o mesmo: pertencer a um deles transforma a experiência de pilotar. A segurança em comboio, o apoio mecânico mútuo, o aprendizado coletivo e a amizade tornam a moto ainda mais parte da vida de quem participa.
Juliana Crepaldi — a voz que inspira mulheres a pedalar pelo Brasil
Juliana Crepaldi é empresária, vive em Jundiaí (SP) e, por anos, ocupou o banco traseiro de uma Kawasaki Vulcan 900 ao lado do marido Luan. Ela via as estradas pelo retrovisor, participava das viagens, sentia a adrenalina — mas não era ela quem pilotava. Até que, durante uma viagem, um pensamento mudou tudo: Se acontecer algo com ele, como saímos daqui? Essa pergunta simples foi o estopim para que Juliana buscasse a habilitação e assumisse o guidão.
A história de Juliana ressoa porque não tem nada de extraordinário — e é exatamente isso que a torna poderosa. Ela não é atleta profissional, não tem quilômetros de pista. Ela é uma mulher comum que decidiu pilotar por razões práticas e pessoais, e que encontrou no motociclismo uma nova forma de viver.
Juntos, Luan e Juliana formam o Casal Crepaldi — um projeto de motociclismo, viagem e lifestyle que existe desde 2011 e hoje conta com mais de 8 mil seguidores no Instagram (@casalcrepaldi). O casal criou o Epa.Cast, podcast de motos produzido em parceria com a Visem TV, com mais de 100 episódios publicados e mais de 25 mil visualizações acumuladas — um espaço semanal dedicado a histórias, entrevistas e tudo o que acontece no universo de duas rodas.
A força do exemplo de Juliana está na consistência. Ela não inspirou outras mulheres com um post viral ou um vídeo espetacular. Ela inspirou pelo acúmulo: viagem após viagem, episódio após episódio, mostrando que é possível — e que vale a pena — colocar o capacete e ir.

Foto: Juliana Crepaldi | @casalcrepaldi no Instagram ou YouTube]
A visão dela e a visão dele
A visão dela: Para as mulheres que chegam ao motociclismo hoje, o guidão representa muito mais do que velocidade. É sobre ocupar espaço. É sobre aparecer em lugares onde, historicamente, não se esperava encontrá-las. As motociclistas brasileiras falam de liberdade com uma intensidade que vai além do clichê: pilotar é, muitas vezes, a primeira vez que elas decidem sozinhas para onde ir, em que velocidade e por qual caminho.
Grupos como The Litas e Ladies of the Road não são apenas comunidades de hobby. São redes de apoio onde se aprende, se erra com segurança e se cresce junto. O motociclismo, nesse contexto, virou um ato político no sentido mais concreto: o de tomar posse do próprio movimento.
A visão dele: A entrada maciça das mulheres no motociclismo mudou a cultura das estradas de uma forma que muitos pilotos experientes reconhecem abertamente como positiva. Os grupos mistos ficaram mais organizados. As abordagens sobre segurança melhoraram. O tom das conversas sobre manutenção e equipamentos ficou mais técnico e menos intimidador para iniciantes.
Pilotos veteranos relatam que andar em comboio com grupos femininos trouxe uma disciplina diferente — mais atenção às paradas, melhor comunicação entre os participantes, mais cuidado coletivo. O motociclismo está melhorando porque está ficando mais diverso. E isso é bom para todo mundo que ama as estradas.
Como começar — primeiros passos para quem quer pilotar
A pergunta que mais aparece nas comunidades femininas de motociclismo não é sobre qual moto comprar. É: Como eu começo? A resposta é mais simples do que parece.
O primeiro passo é tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) na categoria A. O processo envolve aulas teóricas e práticas em autoescola habilitada, exames de legislação e de direção. A duração média gira em torno de três meses, dependendo da disponibilidade do candidato e da autoescola.
Antes de escolher a moto, vale experimentar. Muitas autoescolas e grupos femininos oferecem aulas introdutórias onde é possível sentir o peso da moto, aprender a manobrar em baixa velocidade e descobrir se o tamanho do banco está adequado à estatura. Motos de cilindradas menores — entre 150cc e 300cc — são as mais indicadas para iniciantes, pois combinam leveza e facilidade de controle.
O equipamento de proteção é inegociável: capacete homologado pelo INMETRO, jaqueta com proteções, luvas, calça reforçada e bota acima do tornozelo. Não existe piloto iniciante ou experiente — existe piloto equipado ou desprotegido.
Por fim: encontre uma comunidade. Os grupos femininos de motociclismo são, unanimemente, o melhor lugar para dar os primeiros passos. Lá está o conhecimento, a paciência e o acolhimento que fazem a diferença entre desistir na segunda aula e virar motociclista para a vida toda.
O motociclismo não tem gênero — e nunca teve
Os 10,6 milhões de mulheres habilitadas na categoria A não são uma tendência passageira. São o reflexo de uma mudança estrutural na sociedade brasileira: mais mulheres trabalhando, se deslocando, viajando, tomando decisões e ocupando espaços antes restritos a elas. O motociclismo é apenas um dos palcos onde isso acontece — mas é um dos mais visíveis e mais bonitos.
Quando Juliana Crepaldi saiu do banco traseiro para o guidão, ela repetiu, sem saber, o gesto de milhares de brasileiras. Um gesto de presença. De escolha. De movimento.
Se você está pensando em pilotar, não espere o momento perfeito. Ele não existe. O que existe é a primeira aula, o primeiro comboio, a primeira estrada. E do outro lado de tudo isso, uma comunidade inteira esperando para te receber.
Acompanhe o Casal Crepaldi no Instagram @casalcrepaldi e ouça o Epa.Cast — o podcast de motos da Visem TV — toda sexta-feira às 20h no YouTube e no Spotify.



