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O Brasil vende rotas de moto lá fora. E aqui dentro?

O país tem paisagens que encantam o mundo. Mas entre vender a imagem e montar uma rota de verdade, a distância ainda é grande

Visem

Visem

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Grupo de motociclistas em estrada sinuosa na Mata Atlântica do Sul do Brasil

O Brasil vende rotas de moto lá fora. E aqui dentro?

Em março de 2024, a Embratur foi até Roma apresentar rotas de moto para turistas italianos. Estava lá a Rota das Emoções, a Estrada Real, a Serra do Rio do Rastro e o Capital Moto Week. O argumento era direto: o Brasil tem estradas incríveis e paisagens únicas que o mundo mal conhece.

Não tem como discordar disso. O problema é o que o piloto encontra quando sai de casa aqui dentro.

Sinalização, pontos de apoio, posto de gasolina a cada distância razoável, hospedagem preparada para receber motociclistas — isso é o que define uma rota de verdade. Sem isso, é só uma estrada bonita num folder de marketing.

Grupo de motociclistas em estrada sinuosa na Mata Atlântica do Sul do Brasil

Foto: Imagem Ilustrativa

Por que isso importa agora

O turismo internacional no Brasil cresceu forte em 2026. Só no primeiro trimestre, o país recebeu US$ 3,2 bilhões de visitantes estrangeiros — alta de quase 12% em relação ao mesmo período do ano anterior.

E o mercado de motos também cresce. O Brasil é o quarto maior mercado de motocicletas do mundo. Entre janeiro e maio de 2026, foram mais de 730 mil unidades produzidas. Tem muito piloto novo querendo rodar.

Ao mesmo tempo, o mototurismo vira nicho de alto valor lá fora. O turista europeu que viaja de moto gasta mais, fica mais dias e volta. Ele quer rotas planejadas, com apoio real. É exatamente esse público que a Embratur foi buscar em Roma.

A pergunta que fica é simples: quando esse turista chegar aqui, o que vai encontrar?

Casal Crepaldi no Capital Moto Week em Brasilia

Foto: @Casalcrepaldi - Imagem Ilustrativa

Os estados que têm rota de verdade

O Paraná lidera com folga. A Rota 01 é o primeiro roteiro oficial de mototurismo das Américas — e o título não é só marketing. A história começa em 1923, quando Ricardo Wagner e Afonso Lange saíram de Ponta Grossa em direção a Antonina, um em uma Harley-Davidson, o outro em uma Indian Scout. Foram os primeiros a registrar uma viagem de moto no continente.

Hoje, o trajeto de 400 km entre Ponta Grossa e Antonina passa por Palmeira, Campo Largo, Curitiba e a famosa Estrada da Graciosa — uma das mais bonitas do Sul. O estado tem apoio do governo, com ações do Sebrae e da Secretaria de Turismo do Paraná. Há um Festival Rota 01 anual, em agosto. A rota vive.

São Paulo também avançou. Em setembro de 2024, a Secretaria de Turismo do estado lançou o Guia de Mototurismo, com 118 atrações em 57 cidades e 18 rotas temáticas distribuídas por todas as regiões paulistas. O guia inclui pontos de apoio, restaurantes, mirantes e museus — uma estrutura pensada para quem viaja de moto, não só para quem passa de carro.

Minas Gerais tem a Estrada Real, a maior rota turística do Brasil: 1.630 km divididos em quatro caminhos históricos — Novo, Velho, dos Diamantes e Sabarabuçu — cruzando Minas, Rio de Janeiro e São Paulo. O Instituto Estrada Real existe desde 2001, tem passaporte oficial e mapa para download. Para quem gosta de história com estrada, é difícil bater.

Grupo de motociclistas na estrada do Paraná com Araucárias ao fundo

Foto: Imagem Ilustrativa

Os que vendem a imagem mas falta estrutura

A Rota das Emoções percorre Maranhão, Piauí e Ceará — e é linda de verdade. Lençóis Maranhenses, Delta do Parnaíba, Jericoacoara. Foram feitos investimentos em rodovias, aeroportos e pousadas em cidades como Barreirinhas. É um dos destinos que a Embratur levou para Roma.

Mas a rota foi criada com foco em carro e turismo de aventura, não em moto. Não há sinalização específica para motociclistas. Os pontos de apoio são irregulares fora das cidades maiores. Trechos de areia e estradas sem pavimento exigem motos preparadas — e ninguém avisa isso antes da viagem.

A Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina, é outro caso. O jornal britânico The Guardian já elegeu a SC-390 como uma das estradas mais espetaculares do mundo. São 284 curvas em 24 km subindo a serra entre Lauro Müller e Bom Jardim da Serra. O lugar é espetacular.

Só que não existe um roteiro oficial de mototurismo para a Serra do Rio do Rastro. Não há rota sinalizada, não há guia publicado pelo governo catarinense, não há estrutura específica para pilotos. A estrada virou destino pelo boca a boca e pelos grupos de WhatsApp — não por planejamento público.

O Capital Moto Week, em Brasília, é o maior festival de motos e rock da América Latina — terceiro maior do mundo. Em 2024, reuniu mais de 800 mil pessoas, 350 mil motos e injetou R$ 60 milhões na economia do DF. É enorme. Mas é evento, não rota. Quem chega de moto em Brasília fora do festival encontra pouca estrutura dedicada ao mototurismo.

Motos paradas em estrada costeira do Nordeste brasileiro com mar turquesa ao fundo

Foto: Imagem Ilustrativa

Na prática: o que o piloto encontra no caminho

Quem já viajou de moto pelo Brasil sabe como é. Você planeja a rota em casa, olha o mapa, vê as fotos bonitas. Chega lá e a realidade é outra.

A sinalização some depois das cidades principais. Os postos de gasolina ficam cada vez mais espaçados. A hospedagem que apareceu no Google não recebe moto — ou não tem onde estacionar com segurança. O mecânico mais próximo fica a 80 km.

Nos estados com rota oficial — como Paraná e São Paulo — a situação é diferente. Há pontos de apoio marcados no mapa, parceiros cadastrados que sabem receber motociclistas. Não é perfeito, mas é estrutura.

Na maioria dos outros estados, o piloto depende da própria sorte, dos grupos de moto e do bom senso dos moradores locais. Isso funciona para o brasileiro experiente que conhece os atalhos. Não funciona para o turista italiano que chegou de avião em São Paulo, alugou uma moto e quer percorrer a Rota das Emoções do jeito que a Embratur prometeu em Roma.

A visão dela e a visão dele

Juliana @casalcrepaldi viajando de moto

Foto: Juliana @casalcrepaldi

Viagem @casalcrepaldi Luan e Juliana

Foto: Luan e Juliana @casalcrepaldi

Para muitas pilotos, a falta de estrutura tem um peso a mais. A insegurança de ficar parada em uma estrada deserta, sem sinal, longe de qualquer ponto de apoio, é um fator que inibe quem quer começar a viajar de moto — especialmente quem planeja viagens solo.

Uma rota oficial com pontos de apoio marcados, hospedagens parceiras e sinalização clara muda isso. Não é só conveniência: é a diferença entre a viagem acontecer ou não.

Para os pilotos com mais estrada no pneu, a crítica vem por outro lado. Muitos que já rodaram o país inteiro falam a mesma coisa: o Brasil tem estradas que surpreendem qualquer rota europeia. O problema é que ninguém organizou isso de forma séria. A Alemanha tem a Romantische Straße. A Noruega tem as Rotas Nacionais Turísticas. O Brasil tem o folder bonito — e aí acaba.

O que precisa mudar para o Brasil liderar o mototurismo global

O Paraná mostrou que é possível. São Paulo avançou com o guia. Minas tem estrutura histórica. Mas falta um olhar nacional, coordenado, que transforme o potencial em produto real.

Primeiro: sinalização específica para motos nas rotas priorizadas. O piloto precisa de informação visual no caminho — distância até o próximo ponto de apoio, alertas de trecho perigoso, acesso a mirantes. Isso não existe na maioria das rotas divulgadas hoje.

Segundo: pontos de apoio certificados. Uma rede de pousadas, restaurantes e oficinas que se comprometem com padrões mínimos e aparecem nos mapas oficiais. O Paraná começou isso com a Rota 01. São Paulo listou parceiros no guia. O restante do país precisa seguir.

Terceiro: integração entre os estados. A Rota das Emoções cruza três estados do Nordeste. Qualquer rota de longa distância vai cruzar fronteiras estaduais. Mas cada estado cuida do seu trecho de forma isolada. O piloto que vai de São Paulo ao Maranhão precisa montar o roteiro juntando pedaços de guias diferentes, como um quebra-cabeça.

Quarto: produto para o turista estrangeiro. A Embratur fez certo ao ir para Roma. Faltou o produto estar pronto quando o turista chegar. Aluguel de motos preparadas, guias em outros idiomas, seguro para pilotos estrangeiros — isso ainda é exceção no Brasil.

O país tem tudo para ser um dos principais destinos de mototurismo do mundo. O clima, as estradas, a diversidade de paisagem, o tamanho do território. O que falta é transformar o potencial em estrutura real — e parar de vender pro mundo o que ainda não existe aqui dentro.

Esta é a primeira matéria de uma série exclusiva da Visem TV sobre mototurismo oficial no Brasil. Nas próximas edições, vamos percorrer rota por rota, estado por estado, para mostrar o que funciona, o que falta e o que está por vir. Acompanhe e compartilhe com quem ama estrada.

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Equipe Visem TV

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